Publicado por: Renata Wirthmann | Dezembro 16, 2007

O OBJETO ESTÉTICO NA ARTE

Regivane A. Nogueira (Aluna do Segundo Período do Curso de Psicologia) 

Vi uma frase outro dia num bate papo e achei interessante começar falando sobre essa frase: O que seria da Vênus de Willendorf se todos gostassem da Vênus de Milo? Comparando as duas percebemos uma diferença gritante quanto ao padrão de beleza, mas qual é a mais bela? Afinal de contas, em que consiste o belo? Qual a relação entre beleza estética e arte?

Pode-se dizer que a arte é uma expressão estética, é o modo do artista entender o belo observando o seu objeto de estudo. Ela tem como um de seus principais atributos o poder de discutir as questões de sua época, de modo que vá registrando o tempo ao qual está vinculada.

A arte precisa ser necessariamente bela? O belo é intrínseco à arte, mesmo que essa beleza tenha vários tipos de interpretação. A ótica do espectador é que viabiliza a beleza. Entretanto o que atualmente muitos consideram como belo em arte é, ainda, um fruto do classicismo. Um espectador pode gostar do que é feio, chocante e horrendo para muitos outros, o que nos leva a considerar que não é o gosto que define o que é belo. De acordo com a tradição clássica o belo pode ser definido de maneira formal, ou seja, a partir de certas características como simetria, proporção e ordem das formas dos objetos. Mesmo que o espectador não goste, se estiver dentro dos padrões considerados relevantes aos critérios de beleza de arte ele deverá ser considerado belo. É o que podemos encontrar na Vênus de Milo (130-120 a.C.), que é um padrão de beleza clássica, ao contrário da Vênus de Willendorf que parece altamente desarmônica em relação a tais padrões.

Nem tudo o que é considerado belo deverá, necessariamente, ser considerado arte, e nem toda arte será considerada bela, de tal modo que, às vezes, sentimos uma sensação de que estão ocorrendo distorções acerca do que é belo. Acredito que Hitler concordaria comigo se estivesse olhando para uma tela cubista de Picasso, principalmente se comparada a uma de Rubens ou uma escultura de Antonio Canova.

Como podemos então definir a beleza? Entre inúmeras reflexões que podem ser feitas, podemos nos referir ao pensamento Platônico acerca do belo. No séc. IV a.C., o pensador já questionava o que hoje em dia ainda nos perguntamos. Segundo ele a arte consistia apenas na imitação de coisas belas, ou seja, o artista seria apenas um simples mortal que ganha sua vida imitando aquilo que já existe. Para ele as representações materiais do belo compartilhavam da beleza absoluta, entidade que existia no mundo das idéias e era, portanto, universal e se manifestava na proporção, na simetria, na medida e na harmonia das partes em relação com o todo. Proporções e simetria ligavam a beleza com o bem, enquanto o belo revelava o ser e era ligado também à verdade.

Para Aristóteles, essa imitação tinha seu valor e o belo deveria responder a normas objetivas. Porém não era definido e julgado em relação ao ser e ao verdadeiro, mas em termos de perfeição das formas, ou seja, baseado em critérios objetivos como a ordem, a simetria e a definição.

Com a influência de Hegel, o bom gosto passa a ser considerado a partir do clássico, retomando a influência mais aristotélica do que platônica. O tempo livre para o pensamento foi, conforme os gregos, ocupado com a contemplação do belo aristotélico, no qual o artista é o centro.

Em todas as épocas encontramos um padrão de beleza específico e podemos perceber essas especificidades a partir, por exemplo, das roupas e dos corpos. Podemos utilizar a imagem do corpo feminino como um paradigma dessa modificação de padrão de beleza.

Durante a Idade Média, Santo Agostinho foi um dos pensadores que fez com que as idéias de Platão voltassem a ser discutidas e contribuiu para o desenvolvimento de uma teoria do belo que perdurou até o início do Renascimento. Segundo Humberto Eco nesse período “o belo está em todos os lugares e é sinônimo do bem, da verdade, refletindo uma conjunção harmônica de beleza física e virtude”.

Com o renascimento há um retorno ao antigo conceito grego do belo, influenciado de modo considerável pelos pensamentos de Aristóteles. O belo era visto como reflexo da inalcançável transcendência divina.

A história da arte foi sendo escrita a partir das transgressões de muitos artistas. Manet, por exemplo, foi um pintor que muito contribuiu para o fortalecimento da noção de beleza. Em seu quadro Olympia que representava sua versão da Vênus moderna, ele retrata uma jovem prostituta fazendo uma referência audaciosa a obra de Ticiano (Vênus de Urbino). A modelo foi retratada completamente nua e aos seus pés, diferente do inocente cachorrinho que havia no primeiro quadro, havia um gato negro que contribuía para a composição de um cenário erótico. Segundo Taisa Helena P. Palhares “Manet retoma de forma provocativa o cânone clássico da Vênus de Urbino de Ticiano para metamorfoseá-la na figura de uma mulher venal. Nessa tela, a beleza desce de seu céu metafísico, transcendente, para habitar as coisas mais prosaicas e mundanas”.

Não precisamos observar a fundo para perceber que a arte contemporânea não se utiliza, necessariamente, do belo como diálogo, inclusive o que se percebe é que, a partir do séc. XX, o conceito de belo é definitivamente desvalorizado no âmbito da arte. Ela manifesta-se através da busca da participação do espectador. Apesar dessa transformação da arte, o conceito de belo não desaparece completamente, pois, para quem tem como padrão de beleza uma obra de Renoir ou Leonardo da Vinci talvez tenha dificuldade de aceitar, como obra de arte e como belo, um trabalho de um artista contemporâneo, como Duchamp ou Picabia que fazem uma releitura ousada do mundo e do corpo humano.

Baudelaire afirmava que belo era um conceito eterno e que “todas as culturas dão valor a algo que consideram belo, ideal, desejável, porém tal conceito se realiza historicamente, de forma diferente em cada civilização”. Talvez seja, justamente, por essa relação com a cultura que o conceito de beleza seja tão difícil de ser apreendido ou mesmo impossível de ser universalizado.

Para os ciganos, para culturas orientais e algumas culturas africanas a mulher opulenta e voluptuosa significa sensualidade e feminilidade, contrariando o padrão ocidentalizado de beleza na magreza excessiva. Em determinados povos africanos mulher magra é um sinal de doença e vergonha para o marido. Nessas regiões as mulheres fazem dietas para engordar e para que isso seja possível de modo rápido e barato muitas delas chegam a ingerir suplemento animal.

Em algumas culturas a excessiva valorização da magreza provoca repugnância e principalmente preconceito em relação à gordura. Para os índios Bororo, o corpo liso, sem pêlo, e magro faz parte do ideal de beleza e eles desprezam a aparência física e os hábitos dos representantes de outras etnias.  Existem critérios para o consumo de alimentos e os indivíduos que comem muito são desvalorizados e vistos como animais. Nessa tribo o vômito é encarado como uma prática natural para tornar o corpo mais afilado e entendido como um modo de purificação e de fortalecimento.

Em uma recente pesquisa feita na Universidade de Yale as entrevistadas falam dos sacrifícios que fariam em nome da garantia de nunca serem gordas. O resultado chega a ser chocante, pois, entre outras coisas, algumas pessoas entrevistadas afirmam que preferiam perder um membro que estar muito acima do peso, além das que abririam mão de até 10 anos de vida, ou mesmo prefeririam se tornar alcoólatras ou entrar em depressão profunda. Na cultura ocidental, a mídia tem levado mulheres a uma distorção tão grave do padrão de beleza que acabam arriscando suas vidas na busca do corpo perfeito.

O belo foi, em muitos momentos históricos, definido e considerado algo objetivo e absoluto. Para gregos e romanos, belo, verdadeiro e bom eram três valores supremos. Para os gregos antigos, o bom cidadão da pólis tinha de ser belo e virtuoso. Belo (kalós) era não só o de formas proporcionais, mas também forte e são.

Hume afirmava que “a beleza não é uma qualidade das coisas por si mesmas. Ela existe meramente na mente que as contempla, e cada mente percebe uma diferente beleza”. O senso comum diria: “a beleza está no olhar de quem a contempla”. A grande questão é, como foi educado, esse olhar?

Publicado por: Renata Wirthmann | Dezembro 11, 2007

Encerramento do semestre letivo

Estamos encerrando este semestre letivo e as notas dos alunos estão disponíveis no link produções dos alunos.

Apesar de encerrarmos essa disciplina o blog continua no ar, fazendo divulgação das nossas pesquisas sobre arte, em especial sobre Frida Kahlo.

Para os alunos: Boas Férias, Feliz Natal e aproveitem o tempo livre para colocar as leituras em dia.

Um grande Abraço,

Professora Renata Wirthmannn

Publicado por: Renata Wirthmann | Dezembro 1, 2007

É um mundo muito interessante…

Eu tinha a ilusão de que não estava tão ruim assim…, mas os seres humanos sempre podem nos surpreender.

 

Na China as mulheres não serão mais presas quando forem pegas carregando camisinha na bolsa! Mas por que elas estavam sendo presas até então??? Até então, até hoje, dia 30 de novembro de 2007, uma mulher ser pega portando uma camisinha era prova de que ela era prostituta e como a prostituição é crime a mulher era presa. O interessante que este é o mesmo pais que oferece incentivos para quem respeita a norma de que as famílias tenham somente um filho. É claro que se o primeiro filho for menina eles podem ter um segundo, para tentar um menino!

No Sudão uma professora primária britânica foi presa e está sujeita a pena de 40 chibatadas pela acusação de Blasfêmia por ter permitido que os alunos de seis e sete anos elegessem o nome de Mohammed para um ursinho de pelúcia numa aula sobre respeito com os animais e seus habitats. Com medo de retaliação a escola fechou as portas até fevereiro e todos os alunos estão sem aulas!

Na Arábia Saudita. Uma mulher de 19 anos foi estuprada 14 vezes durante o ataque de uma gangue na região leste do país. Como conseqüência desse crime ela foi condenada a receber 200 chibatadas e seis meses de prisão pela infração das leis de segregação por sexo. Após o processo o advogado da vítima-acusada foi suspenso do caso, teve sua licença confiscada e enfrenta processo disciplinar.

Para finalizar, no Brasil. Uma adolescente de 15 anos foi mantida numa cela com 20 homens por aproximadamente um mês no Pará. Ela foi detida por furto. Na cela ela foi estuprada diversas vezes e, também por diversas vezes, trocou sexo por comida, pois além de tudo ainda estava passando fome. A polícia civil tentou aliviar sua responsabilidade alegando que a jovem nunca contou que era de menor, será que eles também não sabiam que ela era do sexo feminino?!

Como os exemplos parecem ser infinitos me restringi às notícias do mês de Novembro deste ano.

Publicado por: Renata Wirthmann | Novembro 21, 2007

Um dia em Teotihuacan

            HÁ UM NOVO TEXTO NA PRODUÇÃO DOS ALUNOS

             Não é novidade para ninguém que conhece a obra de Frida Kahlo a influência das culturas pré-hispânicas em seus quadros. Mal sabia eu que haviam tantas culturas e tanta influência.

            Com um Tylenol, duas barrinhas de cereal e duas garrafas de água, fui conhecer Teotihuacan que fica a, aproximadamente, 50 km da cidade do México. Teotihuacan é hoje, fundamentalmente, a zona arqueológica de uma cidade, com centenas de templos religiosos, que começou a ser construída no ano 200 a. C. È, sem dúvida, o lugar mais interessante que já fui até hoje.

            Quando cheguei entrei pela Ciudadela e pelo Templo de Quetzalcoatl que fica numa das pontas da Calzada de los muertos, quatro quilômetros da outra ponta onde se localiza a pirâmide da Lua. A princípio resolvi que iria subir, descer e rodear todas as construções, o problema é que eu ainda não tinha dado conta do tamanho de tudo aquilo. Mas comecei como intentei: percorrendo tudo, cm por cm. Além de andar muito, gosto de conversar muito e chamei um arqueólogo que estava trabalhando nas escavações para conversar, muito gentilmente ele veio. Perguntei se haviam encontrado algo dentro das pirâmides e ele respondeu que elas são sólidas, completamente preenchidas por terra e pedras. Apesar de sólidas encontraram um túnel na pirâmide do sol que ia até o centro dela e onde estavam guardados alguns objetos que já foram retirados de lá. Essa primeira parte da zona arqueológica é composta por grandes e largos muros com escadas que formam algo como uma enorme piscina quadrada de, aproximadamente 300 m de lado. Em cima desses muros vemos quadro templos a frente, quatro de cada um dos lados, três ao fundo, dois ao meio, o templo de Quetzalcoatl e as ruínas de algumas habitações ao lado desse templo.

            Estima-se que aqui pode ter vivido uma população de quase 200 mil pessoas, entretanto, dentro dessa região, em habitações de pedra e ao lado dos templos só viveram pessoas de extrema importância como sacerdotes e deuses. Seguindo a Calçado dos Mortos vemos dos dois lados, simetricamente, inúmeros templos e habitações, segui tentando percorrer tudo, nessa altura eu já estava andando a, aproximadamente, 3 horas, e estava ainda no primeiro terço do percurso.

            Além desses templos e habitações em volta da calçada esta também é bastante peculiar, pois para percorrê-la temos que ficar subindo e descendo escadas e percebemos que ela forma gigantescas piscinas retangulares e os arqueólogos imaginam que elas eram cobertas de água e serviam para conter a água da chuva, mas essa água não era utilizada para o consumo, pois dentro de algumas habitações havia poços artesianos de, aproximadamente, 15 m.

              Andando mais um pouco chegamos a pirâmide do Sol que está ao lado da calçada enquanto a da Lua está na cabeça da calçada. A pirâmide do sol tem 66 m e pode ser escalada até em cima, digo escalada por que, apesar de ter escadas, muitas vezes temos que subir “a las quatro patas”, pois os degraus são muito altos e a escada muito íngreme.

             Confesso que não foi fácil subir até o topo, não sei se pela altitude, mas a cada lance de escada eu sentia que todo o oxigênio do planeta tinha desaparecido, o nariz ardia muito e eu ficava tonta e pude perceber que isso acontecia com todos, menos com as crianças. Não sei como conseguiam, mas as crianças, e tinha muita criança, eram as que mais de divertiam, subiam pelas escadas, queriam escalar pelas paredes, corriam entre os templos, parece que não se cansavam!

            De cima da pirâmide do sol temos uma dimensão do tamanho de tudo aquilo e fiquei pensando: e ainda falta uns 70% para encontrar! Mas a cidade atual foi crescendo em volta da zona arqueológica, os estacionamentos estão a poucos metros das pirâmides, fiquei pensando na quantidade de coisa que não poderá ser descoberta.

            Depois da pirâmide do Sol segui até a pirâmide da Lua e fiquei muito feliz quando vi que ela estava fechada e que só poderíamos subir até metade dela. Fiquei feliz por que nessa altura eu já estava andando há 7 horas a base de duas barrinhas de cereais, duas garrafas de água e um Tylenol e me conheço e sei que sou teimosa o bastante para estar vendo o mundo rodar, mas cismar de subir até o fim! Subi até a metade permitida e, finalmente fui descansar. Fiquei sentada lá até ficar preocupada com o frio.

            Fui a Teotihuacan na segunda-feira, pois era feriado na Ciudad de México. Na terça voltei ao museu da Frida para terminar de tirar as fotos, tirei, aproximadamente, 600 fotos no museu e estou com dó de mim e dos três alunos que fazem parte do projeto de pesquisa porque agora virá a parte de catalogar e digitar todos os documentos. Depois do museu da Frida fui até o Museu Diego Rivera Anahuacalle, onde também obtive autorização para fotografar tudo. Nesse museu estão guardadas centenas de peças pré-hispânicas, povos Astecas ou Mexicas, Olmecas, Teotihuacanos, pueblos del Occidente, Totonacas, Zapotecas e Mixtecas. Volto a falar …

Publicado por: Renata Wirthmann | Novembro 19, 2007

É azul a Casa Azul. Parte 2

Sigo tomando três Tylenol por dia e se isso que tenho é gripe é a pior que já tive. Toda vez que vejo um Tylenol ou uma tupperware me lembro de uma professora minha de quando eu fazia faculdade que pronunciava, bem exageradamente, TAAILENOLL e TÃÃPE WEARE.

 

Mas agora voltando para o México. Hoje me dei conta de que meu tempo está muito pequeno e que ainda falta muito para fazer. Hoje fui antes do horário de funcionamento do museu da Frida Kahlo para tirar fotos, aquela casa azul é um paraíso quando se está quase sozinha lá dentro. Ah se eu pudesse entrar em todos os museus fora do seu horário de funcionamento…

 

Por falar nisso preciso fazer um importante agradecimento à administração do museu Frida Kahlo. Tenho me sentido muito acolhida, todos no museu foram extremamente receptivos e atenciosos. Hoje, no museu, me senti em casa, mas apesar de ter trabalhado muito não foi possível fotografar todos os documentos e, por isso, voltarei na terça-feira. Hoje fiz a planta da casa azul, quem me conhece sabe que além de arte e psicanálise adoro arquitetura. Fiz uma planta para poder verificar se não faltou nada para ser fotografado.

 

Antes de falar sobre a planta da Casa Azul tem um elemento do jardim que vale a pena voltar: a oferenda aos mortos. Vou colocar acima a figura da oferenda, falei sobre ela, mas não ilustrei. Essa oferenda foi feita para alguns dos mortos que passaram pela Casa Azul (enquanto estavam vivos, é claro!). São seis homenageados, todos bem magrinhos, esqueléticos, modelo anoréxico de beleza (todos inclusive Diego que, segundo a Frida parecia um sapo e, segundo o pai da Frida, parecia um elefante). Cada um é feito como uma caricatura, com algum elemento que os destaca: o poeta Carlos Pellicer com um barro na mão, Diego Rivera com chapéu na mão, o político Leon Trotsky de jaleco e com uma caneca de cerveja vazia na mão, a cantora Concha Michell no bar com tranças no cabelo, Frida Kahlo com seus cabelos trançados com tecidos coloridos e o último, o arquiteto Juan O´Gorman. Todos eles estão en la Pulqueria La Rosita, lugar muito querido de Frida e que não existe mais.

 

Voltemos a planta da casa azul, pena não poder colocar meus desenhos aqui. A parte museográfica do interior da casa azul possui 12 cômodos. A sala 1 possui uma lareira enorme no formato de uma pirâmide Asteca e, nesta sala, estão alguns quadros a óleo de Frida (é incrível ver esses quadros ao vivo!), alguns esboços e anotações, e, o mais interessante dessa sala a primeira vista, um Huipil de Cariata ou um Bida ni quichi.

 

O que é um Huipil? Existem diversos tipos de Huipil. A maior parte parece uma túnica com três aberturas, uma para a cabeça e duas para os braços. Essa é uma vestimenta feminina tradicional na mesoamerica dos povos pré-hipânicos. O Huipil de Carita, por sua vez, é muito diferente, parece algo mais religioso e é feito com uma renda armada, sendo que o desenho dessa renda diferencia de qual povo é aquela vestimenta. Essa renda é colocada na cabeça e ela contorna todo o rosto, escondendo o cabelo. Na frente vemos um círculo com um buraco no meio para o rosto e, em volta do rosto, uma renda armada de uns 10 cm. Essa renda desce por trás como um véu e forma algo como um poncho de renda que vai até um pouco abaixo dos ombros. Essa vestimenta aparece em apenas dois quadros de Frida enquanto outros tipos de Huipil aparecem em diversos quadros.

 

Daí passamos para a sala 2, totalmente dedicada a Diego Rivera. Nela vemos rascunhos para seus murais e um quadro a óleo à lá Paul Cézanne.

A sala 3 contém jornais, cartas, fotos, documentos, passaportes, boletim escolar, diplomas e livros, poucos livros, pois há uma sala dedicada a eles, a sala 4. Continuo falando dessas outras salas, cozinha e quartos num próximo post, a febre voltou, meus olhos estão ardendo…

Publicado por: Renata Wirthmann | Novembro 17, 2007

É azul a Casa Azul

Parte 1: O Jardim da Casa Azul.

Antes de mais nada dêem uma olhada nas páginas acima, há uma nova. Essa página é reservada para os trabalhos dos meus alunos na disciplina Arte e subjetividade. Vou postar um trabalho por dia nessa página chamada “Produção dos alunos”.  

Agora, voltando ao México…

No meu segundo dia de México fui à Casa Azul, a casa onde viveu Frida Kahlo. Não sei bem explicar o que aconteceu, mas fiquei com o coração disparado o tempo todo da minha visita. Hoje tenho que escrever duas cartas para o museu, uma descrevendo minha pesquisa e outra agradecendo a oportunidade de fotografar, de graça, todo o museu.

Não sei se pelo clima ou pela emoção, mas minha noite foi terrível, passei toda a noite com febre e só consegui dormir por volta das 4 da manhã, quando a febre diminuiu. Mas tem uma coisa interessante dessa minha noite em claro, fiquei pensando na minha tese. É patológica a coisa, mas quando se está fazendo uma tese a gente não pensa em outra coisa, a gente respira tese e adoece tese. Bom, em que pensei? Pensei em Morte. Deixe-me explicar melhor.

Final de Outubro é o dia dos mortos aqui no México. Aqui há um culto a morte e esse culto é feito numa fusão das tradições indígenas e espanholas. O México é um país predominantemente católico, daí a gente se espanta: como é possível conciliar o festivo e burlesco com o religioso?

Nas antigas tradições, quando alguém morria os povos indígenas organizavam festas para ajudar o espírito no seu caminho, colocavam uma trouxa de roupas e comida. Tudo isso para que os mortos pudessem completar sua viagem pelo Chignahuapan (sobre os nove rios). Essa seria uma longa viagem e os mortos poderiam sentir fome, calor ou frio.

Hoje, em várias regiões do México, nesse período do ano são colocadas nas casas oferendas com velas, incensos, imagens religiosas, um crucifixo e a imagem da Virgem de Guadalupe, além, é claro, dos retratos de seus entes falecidos. Juntamente com esses elementos é preparado um banquete com muita comida, bebidas alcoólicas, água, sucos de frutas, pães com formato de mortos enfeitados com açúcar vermelho, para representar o sangue, carnes, frutas e doces.

Quando Frida estava viva ela preparava essas oferendas em sua casa, hoje essas oferendas continuam a ser feitas, mas agora em sua homenagem. Muitos de seus quadros mostram essas caveiras sorridentes e ornamentadas de roupas bem coloridas. Essas oferendas são muito coloridas, festivas e bem humoradas. Vemos caveiras dançando, tocando instrumentos, tudo muito colorido.

Depois que saí da casa de Frida fui conhecer seus arredores. Bem perto dali tinha um grande mercado popular que, além de comidas tradicionais mexicanas e artigos americanos (disney, principalmente), vendia todas as coisas necessárias para se fazer uma oferenda aos mortos: piñatas de papel machê com formato de caveiras (tinha de bob esponja também), doces em formato de caveiras (não teria coragem de comê-los), bandeirolas e todo tipo de enfeites para decoração, todos bem coloridos.

Estranho que apesar de coloridos, sorridentes e engraçados, esses objetos não são alegres, são fúnebres. É estranho pensar como algo tão colorido consegue ser, ao mesmo tempo, tão estranhamente sombrio (A obra da Frida carrega essa característica).

Bom, frente a tudo isso percebi a importância de estudar sobre a morte na obra de Frida Kahlo e para fazer isso preciso estudar a morte na cultura mexicana atual e sua origem nas civilizações antigas. Para me ajudar nessa empreitada comprei alguns livros. Comprei livros sobre os Astecas, Maias e Olmecas, duas biografias da Frida, o Catálogo comemorativo dos seus 100 anos e um livro sobre suas roupas. Preciso agora comprar uma mala para carregar esses e os outros livros que ainda faltam para minha pesquisa. Olhando para a pilha de livros em cima da mesa no meu quarto de hotel fiquei imaginando como seria importante para os professores terem um salário livro, assim como alguns cargos na política tem o salário terno. Se ao menos o salário de professor fosse mais descente talvez isso não fosse necessário!

Deixando a revolta de lado, fiquei impressionada em quanto foi útil minha noite de febre!

Publicado por: Renata Wirthmann | Novembro 16, 2007

DIÁRIO DE VIAGEM AO PAÍS DE FRIDA KAHLO

PARTE 1

      Estudo e escrevo sobre a obra de Frida Kahlo e, para conhecê-la melhor decidi que seria fundamental conhecer pessoalmente seus quadros, sua casa, cidade, cultura, comida, música, roupas, cartas, clima, enfim, como eu poderia me considerar uma pesquisadora de Frida Kahlo sem conhecer os elementos que ela sempre considerou fundamental em sua obra?
      Em busca de completar essa possível falha fiz um projeto para pedir recursos na Universidade Federal de Goiás, onde sou professora. Meu pedido não foi recusado, mas também não pôde ser completamente contemplado, pois a Universidade não paga passagens internacionais, apenas nacionais. Sendo assim, com o apóio financeiro parcial da Universidade, o qual eu agradeço muito, e com o apóio de parentes e amigos, decidi fazer a viagem assim mesmo…
      Cheguei hoje, quinta-feira, à cidade do México, e, tirando o tempo na alfândega (duas horas) e o preço do táxi do aeroporto ao hotel ($550,00 pesos mexicanos, por volta de $ 55,00 dólares), minha primeira impressão da Cidade do México não poderia ser melhor. Depois de um cochilo no hotel, para acostumar ao fuso horário de 4 horas, fui fazer o que mais adoro fazer nas minhas viagens, fui andar a toa pela cidade. Acho que a melhor forma de conhecer uma cidade é entrar em contato com ela, sem nenhum compromisso ou programação. E assim eu fiz, saí do hotel e tomei uma direção qualquer.
     As calçadas estreitas do centro histórico da cidade são cheias de bancas de comidas típicas, roupas usadas e novas, artesanatos, sapatos, etc. São cheias também de pessoas, muito simpáticas e cordiais, na verdade os homens são assim, as mulheres são mais reservadas. A princípio fiquei um pouco sem graça, pois eles mexem muito, nada agressivo, apenas elogios em voz alta. Me lembrei quando fui a Argentina há um ano com meu marido e rimos muito quando um homem me ofereceu, no meio da rua, “casa, comida e 200,00 pesos” e eu respondi: “és muy poco!”.
      Voltando ao México, fui a dois mercados populares, um de artesanatos e outro de alimentos. No primeiro pude ver todo tipo de presentes, jogos e peças para decoração com motivos, principalmente, Maias e Astecas. Comprei para minha filha uma boneca com um vestido como os que Frida utilizava. Nessa feira havia várias bonecas com diferentes vestidos das várias regiões do país, cada vestido desse representa, a partir de suas cores e bordados, as características dos diversos povos Mexicanos. Esses vestidos também eram vendidos para crianças e adultos. Encontrei também brincos e colares como os que Frida utilizava em seus quadros.
      Depois do mercado de artesanato voltei a caminhar até que cheguei num mercado popular que vendia frutas, verduras, comidas típicas, pescados e todo tipo de carne, mas não como se vende hoje no Brasil, mas como se vendia quando eu era criança: animais mortos pendurados ao ar livre, todo tipo de animal, alguns ainda com pêlo, inteiros. Nesse mercado comprei “Tunas”, uma fruta tradicional mexicana que aparece em grande parte das naturezas mortas de Frida. Recebi uma aula rápida de como se deveria segurar, cortar e comer las tunas, pois elas tem uma casca com pequenos espinhos que podem nos machucar. Quando cheguei no hotel provei a Tuna, que é uma fruta verde clara, doce, com bastante suco e muitas sementinhas, que aqui se come, mas que eu, que nem consigo comer semente de uva e de jabuticaba, obviamente não comi.
     Meu primeiro dia em la ciudad de México conheci gustativamente e visualmente elementos dos quadros de Frida, mas o que mais me chamou atenção, como sempre, foi o inusitado. Andando em volta do Paseo central fui surpreendida por quatro inusitados.
O primeiro foi com o caos do trânsito, inúmeros guardas de trânsito, cada um com seu apito, sinalizando uma coisa diferente, um mandava os carros andar o outro mandava esses mesmos carros parar, um mandava os carros andar e o outros os pedestres atravessar, enfim, eu parei na calçada e resolvi acompanhar, talvez entender. Quando parei, outro inusitado: uma passeata com homens, mulheres e crianças pedindo aumento salarial, embora eu saiba que é comum haver passeatas eu não espera encontrar uma hoje. Olhando para passeata outro inusitado, o maior deles, havia um homem nu na margem da passeata! Pensei comigo: “toda cidade tem os seus doidinhos”, mas daí surge mais um homem nu, e depois outro, de repente eu me dou conta de que há dezenas e centenas de homens nus no meio da rua, todos com traços indígenas. Mas eles não estavam apenas nus, havia um papelão com a foto de um rosto cobrindo o pênis, essa foto era amarrada na cintura com um cordão.
     Quem eram aqueles homens? De quem seria aquela foto? Como eles estavam agüentando o frio? e onde estavam as mulheres? Essas perguntas passaram pela minha cabeça e foram rapidamente respondidas: aqueles homens eram do Movimiento de los 400 pueblos; a foto era do Senador Dante Delgado, ex-governador de Veracruz acusado de despojar os camponeses do movimento de suas terras e de prendê-los; para combater o frio eles tocavam tambores e dançavam em ritmos coordenados e, por fim, as mulheres nuas estavam pedindo dinheiro para o movimento – as mulheres, além de poucas, não usavam a cabeça do Senador. Esse terceiro inusitado, sem dúvida, foi o maior, mas ainda houve o quarto: as mulheres nuas estavam em frente ao Museo de Bellas Arte onde colocaram um grande aparato eletrônico com enormes caixas de som, que tocavam músicas Norte Americanas.
      Agora somem todos esses sons e lembre-se de que isso tudo estava acontecendo ao mesmo tempo: Enfim, tínhamos, ao mesmo tempo, som da buzinas dos carros no congestionamento, sirene dos carros de polícia que faziam escolta, o grito das pessoas na passeata por aumento de salários, o canto, acompanhado por percussão, do Movimiento de los 400 Pueblos, e, por fim, o som de música Norte Americana.
      Essa foi minha primeira e boa impressão da cidade, amanhã eu continuo. Acima coloquei uma foto que tirei dos homens nus.

Publicado por: Renata Wirthmann | Novembro 10, 2007

Notação musical: escrita que convoca olhar e voz

Texto de Renata Mattos de Azevedo, psicanalista e doutoranda em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ.

A articulação da psicanálise com o campo das artes, muito cultivada por Freud e Lacan, encontra na música um rico terreno de reflexão. Partindo da proposição de que ela é uma arte na qual os sons musicais são trabalhados ritmicamente, organizados por um compositor na criação da obra e interpretados por um ou mais músicos, destaco há nela, em ambos os casos, a intenção de ser ouvida.

Do lado do compositor, tem-se um endereçamento, o que se transmite através dele, e a dimensão de escrita pulsional nele presente. A obra é passada ao intérprete primeiramente através da notação musical. Caberá a este músico um trabalho diante da partitura para interpretar, e não apenas reproduzir, aquilo que está cifrado na peça, ou seja, o aquilo que está escrito e o aquilo que é impossível de ser escrito.

A interpretação só é possível porque, assim como a alíngua, do qual a linguagem musical se aproxima e é feita, esta também é ambígua. Há, portanto, a dimensão de letra no fazer musical, em especial no ato de escrita, uma vez que é por ela que se pode transmitir o real que a música circunda.

No pólo do ouvinte, entendo que o que se escuta é justamente este impossível que é transmitido de forma enigmática pela obra. É de um encontro com o real que se trata na escuta musical, que faz com que marcas inscritas no sujeito sejam tocadas e rearranjadas, abrindo outras possibilidades para dar conta da exigência incessante de trabalho que a pulsão coloca.

A música promove uma criação ex nihilo com o vazio real da voz perdida, transmitindo inconscientemente àqueles que a tocarão, cantarão ou fruirão um saber fazer por parte do músico com esse objeto. Ao criar a obra, um ciframento duplo se produzirá pelo músico a partir de sua posição frente ao real. E será a notação que permitirá que a efemeridade característica da música, que se extingue materialmente ao terminar de ser tocada, não sem deixar vestígios naqueles que ouvem-na, seja ultrapassada e que as notas musicais que a compõem sejam talhadas pela escrita.

Com isso, a criação musical pode tanto ser ouvida quanto lida: ouvida e lida ao ser interpretada, assim como ouvida e lida quando apreciada. Contudo, interpretação e escuta não serão da mesma ordem. O que o compositor oferece aos sujeitos em cada uma dessas posições será diferenciado e exigirá deles trabalhos distintos. O intérprete poderá ler na peça aquilo que é da ordem do impossível de capturar e escrever, aquilo que é impossível de musicar, de ouvir, de tocar. E, com isso, ele poderá fazer alguma criação possível, rearrajando, como fez o compositor, as marcas sonoro-musicais que nele estão inscritas.

A notação traz um aspecto visual da música e da linguagem musical, da mesma forma que a letra apresenta uma dimensão visual da linguagem. Nela, podemos vislumbrar como a música coloca em ação não somente a pulsão invocante como também a pulsão escópica. Através dessa escrita, ouve-se a voz do compositor em resposta ao desejo do Outro e ouve-se a si próprio no que da obra ressoa no vazio de cada um. Do mesmo modo, vê-se na grafia das notas imagens que chamam o ouvido por portar o inaudito, assim como vê-se a si mesmo no buraco do que é refletido.

A dimensão do olhar e da voz na notação musical remetem ao desejo do Outro e ao endereçamento da obra a este campo, um endereçamento que retorna na escuta. Entendo, desta forma, que a notação promove a simultaneidade da música em se colocar em direção ao desejo do Outro e do desejo ao Outro, ou seja, há uma busca de se fazer ouvir e de se fazer ver, e nesta busca, cunha-se respostas singulares a esse desejo.

Deste modo, a história da linguagem, e mais particularmente da notação musical, pode ser entendida, a partir destas coordenadas, como um modo de tentar apreender aquilo que do som musical faz surgir a obra em sua complexidade. Cada representação gráfica, em determinado período histórico e cultural, escolherá apresentar na escrita musical características específicas da música, seja a altura sonora, o aspecto rítmico, o timbre, a sustentação do som, etc.

A música é, assim, uma criação artística que testemunha o caminho através do qual a pulsão, em sua dimensão invocante, propõe um trabalho ao sujeito no qual ele pode, por este ato criador, transmitir um saber fazer com o objeto. Ela testemunha o gozo do sujeito com a voz perdida, e o registro dessa via se marca na notação musical. Esta, por sua vez, evidencia, em cada nota e traço, a presença da letra e do real na obra musical.

Publicado por: Renata Wirthmann | Outubro 17, 2007

Casa entre Vértebras no Rascunho

Casa entre vértebras, de Wesley Peres, é um romance, nada convencional, construído por fragmentos poéticos em forma de prosa

Leia toda a resenha de Vilma Costa no Jornal Rascunho aqui.

Publicado por: Renata Wirthmann | Setembro 13, 2007

Anjos são mulheres que escolheram a noite

 

 

Nosso grande amigo e músico Paulo Guicheney acabou de receber a notícia de que ele ganhou o prêmio da Bienal de Música contemporânea do Rio com a obra  “Anjos são mulheres que escolheram a noite”.

A obra nasceu da leitura do livro “Palimpsestos” de Wesley Peres, tendo sido escolhidos três poemas para sua composição:

 

Ela, a que não escreverei,

a que me rascunha os ventos e me arranha a lingua,

caos entremeando-me os dedos,

ela, a que me escreve em suas cartas.

 

Tão humana quanto um demônio sonhando, ela

me sopra o húmus da-alguma-mulher-que-se-abraça-e-diz:

A lua sabe a minha chuva,

anjos são mulheres que escolheram a noite;

sem lua, é outra a beleza da noite.

 

E se ela sente saudades da noite,

envio-lhe, em palavras,

uma concha,

ou simplesmente pronuncio seu corpo em aramaico:

caos, cuja chave é o do lado de dentro.

 

 

 

Clique aqui para ouvir a música.

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