Publicado por: Renata Wirthmann | fevereiro 8, 2011

A CLÍNICA DA PSICOSE (trecho da tese de doutorado)

O ser humano porta uma máscara, e o mais difícil a apreender não é a realidade nem a sua semelhança, é a sua máscara, ou seja, sua identidade secreta

(Baudrillard, 1997, p. 36)

“Enquanto acampavam em diferentes bairros, James traçava na mente um esqueleto de mapa da cidade, o pai prevendo que se ele fosse deixado no Saara, faria um mapa do deserto” (O’Brien, 1999, p. 18).

Não se aprende a mapear o deserto e, com certeza, não se compra pronto um mapa do deserto. Poucas pessoas seriam capazes de mapear o deserto. Poucas pessoas sequer conceberiam tal possibilidade. James Joyce talvez fosse uma dessas poucas pessoas capaz de conceber e executar tal mapeamento de um deserto.

James Joyce gostava de cartografar. Cartografava principalmente Dublin e, fez isso de um modo tão detalhado que costumava dizer que se Dublin fosse destruída numa guerra poderíamos utilizar seu livro “Ulisses” para nos orientar na reconstrução de toda a cidade (O’ Brien, 1999, p. 11).

Em “Ulisses”, Joyce inaugurou uma cartografia única. Não existe outro mapa de Dublin como este. Os outros mapas são todos iguais, com autores invisíveis e acessíveis a todos que queiram conhecê-los.

A cartografia de Joyce é como a cartografia de um psicótico. Joyce não compra mapas prontos, ele constrói seu próprio mapa e inaugura sua própria cartografia, inclusive a de um deserto. De um modo diferente, os neuróticos aprendem a utilizar mapas prontos e não são capazes de mapear o deserto.

“Podemos definir o psicótico como aquele que se inscreveu fora dos mapas, ou, como aquele em quem os mapas não se inscreveu. Ou melhor, os supostamente normais, também conhecidos por neuróticos (obsessivos ou histéricos), compram os mapas e se guiam por esses mapas, enquanto que, os psicóticos, fazem sua própria cartografia, seus próprios mapas. E os psicóticos sabem algo mais, sabem que o mapa é o território, que por detrás do semblante não há nada, então mapeiam o nada, e os mais ou menos normais chamam esses mapas de delírio” (Peres, 2010)

O sujeito psicótico foi foracluído dos mapas, foi inscrito fora do simbólico e retorna no real, sob a forma de delírios e alucinações. A cartografia de um deserto é a cartografia de um psicótico inscrita no real. Enquanto o deserto, para o neurótico, é uma extensão indefinida e infinita de areia, para o psicótico é uma possibilidade de escrita, uma cartografia possível. Incapaz de traduzir tal cartografia, o neurótico a interpreta como uma produção delirante e seu autor como louco. Entretanto, da perspectiva do sujeito psicótico, não há nada de fantasioso ou imaginário em sua cartografia, trata-se do real, a real catografia de um deserto.


Na próxima semana postarei sobre o funcionamento da clínica psicanalítica…


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.