Publicado por: Renata Wirthmann | novembro 22, 2008

psicanálise e arte na clínica com crianças

Nesta última semana participei de uma mesa do VII Colóquio Linguagem e educação: infância e subjetividade na psicanálise. Intitulei minha fala de Psicanálise e Arte na Clínica com Crianças. Confesso que dei esse nome e depois fiquei preocupada se daria conta dele, mas fui em frente.

Resolvi começar falando da clínica psicanalítica com crianças como uma clínica possível. E apontando que tomo a psicanálise como a melhor para se trabalhar com crianças hoje na clínica, mesmo com crianças que não falam. É importante lembrar, também, que o trabalho clínico com crianças envolve também seus cuidadores e, em casos mais extremos, até mesmo a escola.

Levando em consideração que o trabalho com crianças não se restringe à criança, isso significa dizer que a clínica com crianças pode começar ainda no nascimento. Como um exemplo disso, cito uma pesquisa muito interessante chamada “INDICADORES CLÍNICOS DE DESENVOLVIMENTO INFANTIL EM 9 CAPITAIS BRASILEIRAS” (clique aqui). Nessa pesquisa foram criados 31 indicadores de pequenas observações sobre o desenvolvimento da criança até os 18 meses de idade e a sua vinculação com a mãe (cuidadora). Esses dados podem ser verificados em entrevistas com a mãe e observação da relação entre mãe e bebê para constatar a modificação ou não de qualquer um desses indicadores. Meu grande elogio a essa pesquisa é o de abrir a possibilidade de intervenção precoce, ou seja, quanto mais cedo forem percebidos determinados sinais, maior a possibilidade de solucioná-los antes que se desenvolvam como sintomas. Esses indicadores foram feitos a partir da teoria psicanalítica Lacaniana.

Muitas crianças autistas também não falam e algumas têm condições de vir a desenvolver a linguagem, mesmo que, pelo menos a princípio, de ecolalia. A psicanálise tem muito a contribuir no trabalho com essas crianças a medida que compreende que é necessário primeiro existir um outro para a criança para que depois a criança venha a falar. Desse modo antes de querer que a criança nos imite é necessário imitar, se fazer espelho dessa criança para que ela perceba seus próprios movimentos e sons e, posteriormente, compreender os movimentos e sons dos outros, a medida que esse outro começa a existir. Como todo espelho humano nossa imitação da criança não é perfeita e a criança começa a perceber essa diferença. A criança grita num tom e você em outro, ela pula numa altura e você eu outra, logo você vai perceber que o tom e a altura do pulo da criança vão começar a se modificar, sem que você diga a ela: pule e fale mais baixo. Na verdade se você o dissesse seria sem efeitos!

E a arte, onde entra nessa história toda? Neste sentido comecei a pensar na experiência causada em nos por uma obra de arte, uma experiência, segundo Freud, de estranhamento. Esse estranho nos possibilita dizer que a arte provoca um deparar constante frente ao desconhecido, de algo sempre novo que nos possibilita inúmeras experiências como, por exemplo, a experiência do belo ou do horror.

Frente às crianças e ao agir infantil, os adultos têm uma experiência parecida, prova disso está na constante tentativa dos adultos de adultecerem as crianças, fazer com que elas se comportem como adultos, sempre elogiando os comportamentos adultos e reprovando os comportamentos infantis, de tal modo que dizer que alguém é infantil virou xingamento. E os adultos dizem: “Olha que menina educada e linda, parece uma mocinha!” ou “Que menino feio, parece moleque, fica por aí fazendo arte!” Quando será que fazer arte virou coisa ruim?!

Fiz uma experiência aqui em casa. Todos os dias ao deixar minha filha na escola digo para ela, na porta da sala, “Faz bastante bagunça!”, ela responde :”eu não!” e sorri. Um dia os coleguinhas da sala dela escutaram essas minhas recomendações e vieram interrogá-la: “Como assim fazer bagunça? Sua mãe fala isso todos os dias? Minha mãe não fala isso!” Continuando a experiência tanto eu quanto me marido, também psicanalista, resolvemos brincar de falar coisas doidinhas com as crianças, como oferecer aos amiguinhos da Sofia, nossa filha, picolé de lesma, tatu andando de costas, sorvete de lua, churrasco de lagartixa, maçã azul, etc. a reação das crianças foi muito interessante, foi uma reação de euforia e angústia, uma euforia angustiada. A euforia pois elas achavam muito engraçado tudo aquilo, a angústia, promovida pelo recalque, devido ao lugar de onde vinham tais maluquices, vinham da boca de adultos, de pais. Nas visitas seguintes as crianças começaram a se aventurar a falar maluquices e nos provocar com absurdos de linguagem também e de repente percebemos que elas estavam fazendo metáfora e até versos de poesia, veja uns que a Sofia fez:

Bailarina dançou com pernas de vento e corpo de pássaros

 

A peixinha rosa estava nadando, quando a árvore caiu no rio, e os passarinhos voaram na água junto com a peixinha. Eram passarinhos aguáticos.

 

O sol está dentro da noite

 

A chuva estava andando lá no chão. De repente, a chuva caiu dentro do raio

 

Num próximo post colocarei algumas conversas maluquinhas, poesia pura!

As crianças têm a capacidade de produzir arte, de brincar com arte, de experenciar a arte e tenho percebido na clínica e fora dela que essa experiência tem efeitos muito interessantes que permitem a criança desenvolver sem abandonar seu comportamento infantil, sem ter que virar adulto antes da hora.

 


Responses

  1. Dialogo seu e da criança?
    Talvez a interior…
    precisa escutar os funks cariocas!

  2. Li de novo!
    Perfeito!


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