Neste semestre uma das disciplinas que trabalhei no curso de Psicologia foi Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem na Infância que me obrigou a retomar aos livros de Piaget e de Vygotsky. Desses dois não é segredo que gosto mais de estudar Vygotsky e falando de sua teoria em sala, lendo seus trabalhos (sempre trabalho mais com os próprios autores e menos com comentadores) surgiu uma discussão em sala muito pertinente ao tema da disciplina: o ensino do concreto e do abstrato, mais especificamente com crianças com deficiência mental.
Essa discussão partiu de uma passagem do livro “A formação Social da Mente” de Vygotsky que dizia o seguinte: “Estudos estabeleceram que as crianças retardadas mentais não são muito capazes de ter pensamento abstrato. Com base nesses estudos, a pedagogia da escola especial tirou a conclusão, aparentemente correta, de que todo o ensino dessas crianças deveria basear-se no uso de métodos concretos do tipo “observar-e-fazer””.
É claro que Vygotsky não concorda com essa posição e quais são os motivos para se opor a esse tipo de educação? O primeiro e mais forte motivo consiste no fato de que uma educação que se baseie apenas no concreto, como ponto de partida e de chegada, apenas reforça um sintoma que já existe. Desse modo, podemos afirmar que um ensino do tipo observar-e fazer reforça a dificuldade que essas crianças já tem de abstrair.
Tendo isso em vista Vygotsky conclui que “O concreto passa a ser visto somente como um ponto de apoio necessário e inevitável para o desenvolvimento do pensamento abstrato – como um meio, e não como um fim em si mesmo”.
Mas nossa discussão não para por aí. Nas observações que temos feito em escolas públicas da cidade temos percebido que a dificuldade de aprender o abstrato não é um sintoma apenas de crianças com deficiência mental, mas que tem afetado uma parcela muito grande de alunos. Um modo simples de observar isso pode ser visto na clínica e nas observações nas salas de aula com a dificuldade encontrada por algumas crianças para fantasiar, brincar de faz-de-conta, inventar histórias etc. Mas se fantasiar, criar, fazer-de-conta, são atividades tão próprias das crianças o que pode estar acontecendo para essas atividades irem se perdendo?
Essa resposta precisa de um trabalho mais longo, mas enquanto não podemos respondê-la podemos, ao menos, remediar a situação. Nesse sentido me parece fundamental em casa, na escola regular ou na escola especial, incluir nas atividades cotidianas algumas que levam à capacidade de abstração e, com crianças, a melhor forma de fazer isso são com atividades de criação e imaginação.
Olá Dra,
Parabéns pelo blog, e pertinente os questionamentos.
Estou fazendo coletânea de textos psicanalíticos para o site http://www.psicanalistas.net a sra. teria um para enviar?
Queria saber de como entrar em contato com a sra.
Grato.
Por: Fernado em Agosto 12, 2008
às 9:03 pm
Bom demais ler esse texto, Renata. Foi na escola, usando palitinhos de dente quebrados em diferentes tamanhos ( imagina!), que comecei a entender o que era unidade, fração, soma, subtração. Tempos depois, acabei aprendendo o que é divisão, partilha, justiça. Injustiça só aprendi depois. Tudo pra nunca mais esquecer. Abraços.
Por: Tutti em Agosto 29, 2008
às 5:59 pm