Desde que o caso Isabela apareceu na mídia tenho notado diversas reações em pessoas de todas as idades. As crianças fazendo perguntas e projeções, elaborando perguntas como: “O que a menina fez para ficarem tão bravos com ela?” ou brincando de telejornal em que a notícia era dada inúmeras vezes, repetidamente como se estivéssemos mudando de canal e todos falando do mesmo assunto.
A pergunta “O que a menina fez para ficarem tão bravos com ela” evidencia a preocupação das crianças com a possibilidade de que algo assim pudesse acontecer com elas, afinal não raro as crianças fazem suas malcriações e não raro escutam ameaças de seus pais tais como: “vou te bater!”, “que vontade de te esganar!”, “Ah, se eu te pego, você vai ver só!”.
Mas o que faz com que uma criança possa, de fato, acreditar nessas ameaças? Sentir medo dessas ameaças e, conseqüentemente, de seus pais? Ora, essa pergunta nos leva a outra que determina a origem dessas questões: “Qual o limite do poder dos pais sobre seus filhos?”
O caso Isabela veio evidenciar um fato que até agora não foi colocado em questão, dos limites das ações dos pais sobre seus filhos. Como professora do curso de Psicologia e como psicanalista freqüentemente sou questionada sobre a educação das crianças em casa e na escola e as perguntas acabam, inevitavelmente sendo resumidas em: as crianças devem ou não apanhar?
Antes de mais nada é necessário compreender que educar e bater são duas coisas completamente diferentes e que, portanto, não se deve utilizar a educação como desculpa para espancar os filhos!
Bater em crianças é partir do pressuposto que eles não são seres de linguagem e que são, portanto, incapazes de compreender qualquer tipo de comunicação diferente da corpórea. O outro ponto que gostaria de abordar, e o mais importante, é: que direito os pais tem sobre o corpo das crianças que autorize tal ato?
Imaginem a cena de um espancamento da perspectiva da criança, imaginem um adulto três ou quatro vezes maior que você vindo enfurecido na sua direção, com um olhar assustador. Agora imagine que esse adulto não é um adulto qualquer, mas é justamente aquele que cuida de você e que tem a responsabilidade sobre seu bem estar e sua sobrevivência física e mental. ‘Se esse adulto que vem me espancar é aquele no qual eu posso confiar minha vida, qualquer coisa pode acontecer comigo, afinal quem mais pode me proteger?’
É preciso aprender que esse corpo sobre o qual se espanca é um outro corpo, de um outro ser humano. Os filhos não pertencem aos seus pais, tampouco seus corpos. Bater ou espancar é ultrapassar essa barreira do corpo do outro, da existência do outro. É necessário respeitar o corpo do outro, perceber a existência da criança como um outro.
A medida que os pais vão aprendendo a perceber na criança um outro vão percebendo pequenas coisas que evidenciam isso. Por exemplo, uma criança que reclama porque dói quando a mãe lhe penteia o cabelo e a mãe lhe responde: “para de reclamar porque não está doendo!”. Ora, mas se é o cabelo da criança como a mãe pode saber mais do que ela se dói ou não?!
Freqüentemente, quando as crianças ficam doentes os pediatras orientam os pais dos procedimentos a serem feitos e, normalmente, esses procedimentos serão feitos no corpo da criança sem o consentimento desta, sem a menor chance de que ela possa entender o que está acontecendo. Certa vez uma criança de aproximadamente quatro anos estava com o intestino preso há vários dias e o pediatra recomendou o uso de supositório, chegando em casa, sem trocar uma única palavra, os pais pegaram a criança, tiraram sua roupa, deitaram-na na cama e lhe aplicaram o supositório. A criança ficou completamente estática, perplexa, em choque. Depois do evento passou o resto do dia em silêncio, não conversou com o pai nem com a mãe e só se dirigiu a eles mecanicamente, cumprindo a obrigação de dizer boa noite na hora de ir dormir.
Ora, a ação dos pais foi interpretada como uma agressão contra o corpo da criança a medida que a criança não teve elementos para poder elaborar aquele evento, interpretá-lo para poder lidar com ele. É claro que a criança ficaria brava com os pais pelo uso do supositório mesmo que estes a tivessem explicado o que estava acontecendo, mas, pelo menos ela teria elementos para elaborar isso mais tarde. Minha recomendação aos pais foi de que, mesmo depois, explicassem para a criança o que aconteceu e lhe pedissem desculpa pela invasão que fizeram em seu corpo sem o seu consentimento.
Em todas as áreas em que se trabalha com crianças ainda se tem muito que aprender sobre a existência da criança. É necessário permitir que a criança elabore suas demandas, que ela comunique os seus próprios incômodos, que lhe parem de adivinhar depois que elas não são mais bebês, afinal a loucura necessária das mães só é necessária enquanto ainda não há linguagem. E isso deve ser levado para os tratamentos de saúde e para as escolas também. Tenho acompanhado muitos casos de crianças que fazem acompanhamento com psiquiatras que nunca viram pessoalmente a criança, que fazem todas as consultas pautadas nas palavras dos pais, medicam as palavras dos pais e não os sintomas das crianças, não observam as crianças, não tentam comunicar com elas e perceber nelas as suas demandas.
O caso Isabela choca indivíduos de todas as idades, principalmente pelas projeções que são feitas. Quando algo causa tal comoção torna-se necessário repensar seus elementos, perceber suas implicações. Nesse breve artigo repensamos sobre os efeitos desse evento nas crianças.