Publicado por: Renata Wirthmann | Março 26, 2008

O PERCURSO LACANIANO DO DESEJO AO GOZO

Quando se fala de um percurso lacaniano do desejo ao Gozo não se trata de um desaparecimento do primeiro, mas de uma prevalência do segundo. Lacan elabora os conceitos de desejo e de gozo para tentar dar conta do conceito Freudiano de pulsão, entretanto em sua primeira tentativa, com o desejo, ele acaba negligenciando o conceito freudiano e, por isso, continua seu percurso a traz de um modo que seja possível falar de algo que não diz nada, da silenciosa pulsão.

O desejo é estruturante do ser humano. Mas o que é o desejo? Podemos tomar o desejo como sinônimo da falta. O desejo é algo que se coloca para o sujeito sempre como uma condição absoluta e infinita, sempre insatisfeito e inatingível. “É na medida em que a demanda está para além e para aquém de si mesma, que, ao se articular com o significante, ela demanda sempre outra coisa” (Lacan, 1959-1960/1988, p. 353). O desejo se encontra em uma cadeia metonímica que se relaciona sempre com algo para além da demanda.

Para percorrer esse percurso lacaniano do desejo ao gozo partiremos do seminário 4 de Lacan, passaremos pelos seminários 5, 7, 11, 17 até finalmente chegarmos ao seminário 20.

            Até o seminário 5, há a redução da pulsão ao plano simbólico. No Seminário 4 o falo está no lugar da pulsão freudiana, visto que a pulsão se localiza na junção do imaginário com o simbólico. Pode-se dizer que, nesse período, o desejo eclipsa a pulsão e o operador do eclipse é o falo.

Qual relação que Lacan estabelece entre desejo e pulsão? Para falar disso é necessário tratar da trilogia: necessidade, demanda e pulsão. Entende-se por necessidade o elemento bruto da pulsão, que impões à experiência. Demanda, por sua vez, é o que, da pulsão, consegue passar à fala, anulando, convertendo nela o bruto da necessidade. É impossível que toda necessidade se transforme em demanda, a diferença entre as duas (D/N), o resto, é o desejo. O desejo é, portanto, a diferença inevitável, impossível de ser suprimida, que faz sempre existir um significado a mais (pois assim como o significado o desejo fica debaixo da barra S/s). O problema desse trio é que ele não esgota o que há para se dizer sobre a pulsão.

Paralelamente Lacan formulava o conceito de objeto a que vem para traduzir a pulsão Freudiana e toma o lugar de destaque que fora, até então, dado ao falo e ao desejo.

            No seminário 7 Lacan vai desenvolver que a satisfação buscada pela pulsão é a possibilidade de uma constância, sendo que essa busca só existe por que há, no aparelho psíquico, uma força que age no sentido oposto. Dessa forma não há possibilidade de gozo sem interdição, são necessárias essas duas forças contrárias, “uma transgressão é necessária para ascender a esse gozo e é muito precisamente para isso que serve a lei” (Lacan, 1959-1960/1988, p. 217). Essa força contrária ao gozo é o que impede que o homem se enforque na corda do seu próprio desejo, é o que faz com que no lugar da morte advenha uma rotina de satisfação limitada, curta.

            Nesse momento há o que podemos chamar de “gozo da transgressão”, ou seja, um gozo que aparece essencialmente ligado ao excesso. Esse modo de gozo se dá como tentativa de satisfação da pulsão.

            Gozo, na acepção comum da língua refere-se a fruição e está ligado ao verbo usufruir e, consequentemente, se liga a um objeto, pois quem usufrui, usufrui de algo. Está ligado também a uma sensação, pois essa fruição é acompanhada de prazer e satisfação. No seminário 7 o verbo se mantém, trata-se ali de usufruir de um bem. O objeto que se trata de usufruir, entretanto, vai apontando um diferencial em relação ao uso comum, pois não se trata de um objeto de uma necessidade, de algo útil, mas do objeto da pulsão, que, no seminário 7, Lacan nomeia de das Ding.

            Das Ding, a Coisa, é o objeto perdido desde sempre, que se quer reencontrar e que jamais poderá ser encontrado. Daí decorre uma identificação entre das Ding e a tendência de reencontrar esse objeto, algo que Freud coloca como fundamental para a orientação do sujeito, mas que nem por isso é possível de ser dito, pois se trata de um objeto sequer perdido, uma vez que nunca foi possuído. Configura-se assim, no registro da pulsão de morte, uma busca pela satisfação plena que só seria possível no reencontro com o objeto perdido. E, nessa relação do homem com o significante, esse mesmo significante manipulado pelo homem, também o coloca em relação com o objeto que representa a Coisa.

            No Seminário 11 o verbo do gozo passa de usufruir para fazer-se usufruir. A pulsão trata-se, aqui, deste fazer-se: fazer-se bater, fazer-se ver, fazer-se ouvir, etc. A diferença entre o gozo do seminário 7 e do 11 é que no Seminário 11 o sujeito tem acesso ao gozo em relação ao gozo de um outro, deste modo o gozo passa da posse de um bem a estar no lugar de um bem a ser usufruído por outro.

            No seminário 11 o objeto da pulsão não é mais a Coisa, mas o objeto a. Lacan introduz o conceito de objeto pequeno a no nível do objeto parcial, um objeto metonímico que sempre afirma: Não é isso! Esse objeto a foi chamado, por Lacan, de objeto causa do desejo e pode se apresentar como o objeto da sucção, da excreção, ou ainda, o olhar e a voz. Portanto, esses quatro objetos são tomados pelo sujeito como substitutos do Outro e são sobre esses objetos que o sujeito afirma seu saber, que, na verdade, não passa de correlato de objetos a, “correlatos de fala que goza enquanto gozo de fala” (Lacan, 1972-1973/1985, p. 171).

            A partir desse momento acompanhamos, na obra lacaniana, uma desvalorização do significante fálico e, consequentemente, uma valorização o objeto a. O gozo passa a ser tratado pelo viés do objeto a. O excesso de gozo que antes fora tomado como transgressão passa a ser chamado de objeto a, como “mais-de-gozar” (A/G = a , Outro sobre gozo é igual a objeto a).

            No seminário 17 a noção de gozo é similiar com a do seminário 11, entretanto a partir desse seminário Lacan tenta evidenciar o caráter primário do gozo, sendo que o próprio sujeito surgiria da relação do significante com o gozo.

No Seminário 20 Lacan traz uma última reformulação sobre o gozo em que ele conceitua o gozo como uma instância negativa – “O gozo é aquilo que não serve para nada” – mas que temos o direito de usá-lo, abusá-lo – mas não muito – não que isso tenha alguma utilidade, mas temos que usá-lo. Aparentemente, nada parece obrigar o sujeito a gozar, mas o gozo se manifesta, efetivamente, sob a forma de um imperativo, já que todo significante é, de saída, imperativo, superegóico, temos, então, o imperativo do gozo: Goza! (Lacan, 1972-1973/1985, p. 11).

            Num primeiro momento, no seu seminário 20, Lacan fala de um gozo ligado a um desejo, à uma possibilidade de satisfação, esse gozo de que se trata é um gozo sexual, fálico, um gozo que é não-todo, de um ser falante cujas necessidades estão sempre implicadas numa outra satisfação inconsciente, a satisfação da fala, que pode ser ou não ser dita.

            Para além desse modo de gozo, Laca fala de um Outro gozo, um gozo do corpo, do ser, um gozo do Outro. Se no primeiro, há a busca de um gozo sexual, fálico, neste segundo temos um gozo do corpo como tal e não do que se diz sobre o corpo. Trata-se de um corpo assexuado, pois o que faz de um corpo, sexuado, é a linguagem, pela nomeação e significação das partes do corpo. “É claro que o que aparece nos corpos, com essas formas enigmáticas que são os caracteres sexuais – que são apenas secundários – faz o ser sexuado. Sem dúvida. Mas, o ser, é o gozo do corpo como tal, quer dizer, como assexuado (…)” (Lacan, 1972-1973/1985, p. 15).

            O gozo do ser é um gozo fora-da-linguagem, que suporta o corpo como tal e não o corpo mortificado pela linguagem. Do lado desse gozo está o gozo feminino, um gozo que, assim como o gozo do corpo é inacessível, por não corresponder a nenhum desejo e, portanto, não poder ser de forma alguma apreendido ou significantizado.


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