Não há pulsão de vida sem pulsão de morte, de tal forma que seria impossível isolá-las e, por isso, podemos afirmar que, se a pulsão de vida e a pulsão de morte são indissociáveis, então, toda busca de prazer é também um caminho rumo à morte, ao prazer absoluto, e que, portanto, todo desejo é um desejo de morte. “A vida só pensa em morrer – morrer, dormir, sonhar talvez” (Lacan, 1954-1955/1985, p. 293).
Entre o sujeito e o desejo radical inominável há uma barreira que impede o sujeito de seguir o caminho da sua própria destruição, essa barreira é o belo. Entretanto não é porque o belo detém o sujeito da destruição que poderíamos afirmar que o belo esteja mais perto do bem, talvez o belo esteja, na verdade, mais próximo do mal.
Já que a verdade não seria suportável de ser vista, ela se apresenta velada, acobertada pelo belo, que faz isso de tal forma que parece se tornar, ele próprio, a verdade. Fazendo isso o belo passa a exercer no sujeito um desejo de posse. Mas não se trata de admirar ou ter o belo, o sujeito quer possuí-lo, quer que o belo possa ser possuído.
No filme “Arquitetura da Destruição” assistimos a construção do objeto estético do Nazismo. Hitler foi o arquiteto da destruição e tinha como objetivo salvar a Alemanha e, posteriormente, o mundo do que ele considerava decadência. Para o Nazismo a decadência se apresentava, nas artes, com as obras do modernismo e no mundo humano pelos loucos, deficientes, negros, miscigenados, homossexuais e, principalmente, judeus. O ideal estético de Hitler levou o nazismo a uma perversa aproximação da estética na arte e na Humanidade e, tomando como princípio a necessidade de embelezar o mundo a qualquer custo, este arquiteto da destruição iniciou sua “obra” com a eliminação de tudo o que ele considerava imperfeito.
Com a instauração do Nazismo foram ditados critérios para se definir o que é arte, assim como critérios para se definir o que é vida, saúde, raça e, finalmente, humanidade. Temos o início dessa obsessão estética numa busca de beleza ambiental: as lojas, as fábricas e os funcionários precisavam estar sempre limpos e organizados. O que fugisse a esse padrão deveria ser descartado.
Desse modo o Nazismo começou descartando o lixo das fábricas e lojas para produzir um ambiente limpo e funcional, depois do lixo o Nazismo começou a descartar tudo aquilo que fugia do padrão de beleza por eles determinado: crianças que nasciam imperfeitas eram mortas, assim como os deficientes adultos, os loucos, os judeus… tudo que era considerado peste, doença, que atrapalhava o crescimento da Alemanha, precisa ser exterminado! Daí a denominação dos judeus como ratos, como peste, e as propagandas na mídia incentivando o extermínio.
As deformações estéticas da arte moderna foram comparadas às deformações físicas e mentais de alguns indivíduos e, tanto a arte quanto estes indivíduos, deveriam ser descartados. O Nazismo acreditava possuir o Belo, possuir a verdade e essa verdade deveria ser imposta para todo o mundo e para isso seria necessária uma grande guerra, uma Segunda Guerra Mundial. Até a Guerra, aos moldes do Nazismo, era uma guerra moderna, mas seus objetivos eram antigos, de tal modo que a vitória não era suficiente, era necessário erradicar o inimigo!
A morte é dissimulada pelo belo, ele dissimula o inabordável desejo de morte levando o sujeito à ilusão de se relacionar com a eternidade. Nas batalhas Hitler enviava um artista plástico juntamente com os soldados para que as lutas e, claro, as vitórias, pudessem ser eternizadas pelos traços clássicos de um artista. Essas obras feitas nos campos de batalha dissimulavam a morte e apresentava a idéia de que o Nazismo estava construindo uma Alemanha, uma Áustria, um mundo, mais bonito, próspero e desenvolvido culturalmente. Para manter essa aparência bela Hitler construía, também, museus, organizava exposições, arquitetava uma nova Berlim de construções gigantescas que perdurariam por toda a eternidade.
Do mesmo modo que a morte é dissimulada pelo belo é também o belo que revela a relação do sujeito com a morte. O desejo se vê aprisionado no belo, por uma miragem, de forma que o sujeito imagina ver seus desejos em objetos específicos, em marcas. “O belo que estava como transição, modo de passagem, faz com que se torne o próprio objetivo a ser buscado” (Lacan, 1960-1961/1992, p.131).
O belo se torna objeto de desejo de tal forma que Lacan (1959-1960/1988, p. 289), comentando Freud, diz que o artista “dá forma bela ao desejo proibido, para que cada um, comprando dele seu pequeno produto de arte, recompense e sanciona sua audácia”.
Há, portanto, uma relação peculiar entre o desejo e o belo. O belo tem o efeito de suspender, rebaixar, desarmar, intimidar e até proibir o desejo, ao mesmo tempo em que, o desejo pode se manifestar através do belo.