Publicado por: Renata Wirthmann | dezembro 16, 2007

O OBJETO ESTÉTICO NA ARTE

Regivane A. Nogueira (Aluna do Segundo Período do Curso de Psicologia) 

Vi uma frase outro dia num bate papo e achei interessante começar falando sobre essa frase: O que seria da Vênus de Willendorf se todos gostassem da Vênus de Milo? Comparando as duas percebemos uma diferença gritante quanto ao padrão de beleza, mas qual é a mais bela? Afinal de contas, em que consiste o belo? Qual a relação entre beleza estética e arte?

Pode-se dizer que a arte é uma expressão estética, é o modo do artista entender o belo observando o seu objeto de estudo. Ela tem como um de seus principais atributos o poder de discutir as questões de sua época, de modo que vá registrando o tempo ao qual está vinculada.

A arte precisa ser necessariamente bela? O belo é intrínseco à arte, mesmo que essa beleza tenha vários tipos de interpretação. A ótica do espectador é que viabiliza a beleza. Entretanto o que atualmente muitos consideram como belo em arte é, ainda, um fruto do classicismo. Um espectador pode gostar do que é feio, chocante e horrendo para muitos outros, o que nos leva a considerar que não é o gosto que define o que é belo. De acordo com a tradição clássica o belo pode ser definido de maneira formal, ou seja, a partir de certas características como simetria, proporção e ordem das formas dos objetos. Mesmo que o espectador não goste, se estiver dentro dos padrões considerados relevantes aos critérios de beleza de arte ele deverá ser considerado belo. É o que podemos encontrar na Vênus de Milo (130-120 a.C.), que é um padrão de beleza clássica, ao contrário da Vênus de Willendorf que parece altamente desarmônica em relação a tais padrões.

Nem tudo o que é considerado belo deverá, necessariamente, ser considerado arte, e nem toda arte será considerada bela, de tal modo que, às vezes, sentimos uma sensação de que estão ocorrendo distorções acerca do que é belo. Acredito que Hitler concordaria comigo se estivesse olhando para uma tela cubista de Picasso, principalmente se comparada a uma de Rubens ou uma escultura de Antonio Canova.

Como podemos então definir a beleza? Entre inúmeras reflexões que podem ser feitas, podemos nos referir ao pensamento Platônico acerca do belo. No séc. IV a.C., o pensador já questionava o que hoje em dia ainda nos perguntamos. Segundo ele a arte consistia apenas na imitação de coisas belas, ou seja, o artista seria apenas um simples mortal que ganha sua vida imitando aquilo que já existe. Para ele as representações materiais do belo compartilhavam da beleza absoluta, entidade que existia no mundo das idéias e era, portanto, universal e se manifestava na proporção, na simetria, na medida e na harmonia das partes em relação com o todo. Proporções e simetria ligavam a beleza com o bem, enquanto o belo revelava o ser e era ligado também à verdade.

Para Aristóteles, essa imitação tinha seu valor e o belo deveria responder a normas objetivas. Porém não era definido e julgado em relação ao ser e ao verdadeiro, mas em termos de perfeição das formas, ou seja, baseado em critérios objetivos como a ordem, a simetria e a definição.

Com a influência de Hegel, o bom gosto passa a ser considerado a partir do clássico, retomando a influência mais aristotélica do que platônica. O tempo livre para o pensamento foi, conforme os gregos, ocupado com a contemplação do belo aristotélico, no qual o artista é o centro.

Em todas as épocas encontramos um padrão de beleza específico e podemos perceber essas especificidades a partir, por exemplo, das roupas e dos corpos. Podemos utilizar a imagem do corpo feminino como um paradigma dessa modificação de padrão de beleza.

Durante a Idade Média, Santo Agostinho foi um dos pensadores que fez com que as idéias de Platão voltassem a ser discutidas e contribuiu para o desenvolvimento de uma teoria do belo que perdurou até o início do Renascimento. Segundo Humberto Eco nesse período “o belo está em todos os lugares e é sinônimo do bem, da verdade, refletindo uma conjunção harmônica de beleza física e virtude”.

Com o renascimento há um retorno ao antigo conceito grego do belo, influenciado de modo considerável pelos pensamentos de Aristóteles. O belo era visto como reflexo da inalcançável transcendência divina.

A história da arte foi sendo escrita a partir das transgressões de muitos artistas. Manet, por exemplo, foi um pintor que muito contribuiu para o fortalecimento da noção de beleza. Em seu quadro Olympia que representava sua versão da Vênus moderna, ele retrata uma jovem prostituta fazendo uma referência audaciosa a obra de Ticiano (Vênus de Urbino). A modelo foi retratada completamente nua e aos seus pés, diferente do inocente cachorrinho que havia no primeiro quadro, havia um gato negro que contribuía para a composição de um cenário erótico. Segundo Taisa Helena P. Palhares “Manet retoma de forma provocativa o cânone clássico da Vênus de Urbino de Ticiano para metamorfoseá-la na figura de uma mulher venal. Nessa tela, a beleza desce de seu céu metafísico, transcendente, para habitar as coisas mais prosaicas e mundanas”.

Não precisamos observar a fundo para perceber que a arte contemporânea não se utiliza, necessariamente, do belo como diálogo, inclusive o que se percebe é que, a partir do séc. XX, o conceito de belo é definitivamente desvalorizado no âmbito da arte. Ela manifesta-se através da busca da participação do espectador. Apesar dessa transformação da arte, o conceito de belo não desaparece completamente, pois, para quem tem como padrão de beleza uma obra de Renoir ou Leonardo da Vinci talvez tenha dificuldade de aceitar, como obra de arte e como belo, um trabalho de um artista contemporâneo, como Duchamp ou Picabia que fazem uma releitura ousada do mundo e do corpo humano.

Baudelaire afirmava que belo era um conceito eterno e que “todas as culturas dão valor a algo que consideram belo, ideal, desejável, porém tal conceito se realiza historicamente, de forma diferente em cada civilização”. Talvez seja, justamente, por essa relação com a cultura que o conceito de beleza seja tão difícil de ser apreendido ou mesmo impossível de ser universalizado.

Para os ciganos, para culturas orientais e algumas culturas africanas a mulher opulenta e voluptuosa significa sensualidade e feminilidade, contrariando o padrão ocidentalizado de beleza na magreza excessiva. Em determinados povos africanos mulher magra é um sinal de doença e vergonha para o marido. Nessas regiões as mulheres fazem dietas para engordar e para que isso seja possível de modo rápido e barato muitas delas chegam a ingerir suplemento animal.

Em algumas culturas a excessiva valorização da magreza provoca repugnância e principalmente preconceito em relação à gordura. Para os índios Bororo, o corpo liso, sem pêlo, e magro faz parte do ideal de beleza e eles desprezam a aparência física e os hábitos dos representantes de outras etnias.  Existem critérios para o consumo de alimentos e os indivíduos que comem muito são desvalorizados e vistos como animais. Nessa tribo o vômito é encarado como uma prática natural para tornar o corpo mais afilado e entendido como um modo de purificação e de fortalecimento.

Em uma recente pesquisa feita na Universidade de Yale as entrevistadas falam dos sacrifícios que fariam em nome da garantia de nunca serem gordas. O resultado chega a ser chocante, pois, entre outras coisas, algumas pessoas entrevistadas afirmam que preferiam perder um membro que estar muito acima do peso, além das que abririam mão de até 10 anos de vida, ou mesmo prefeririam se tornar alcoólatras ou entrar em depressão profunda. Na cultura ocidental, a mídia tem levado mulheres a uma distorção tão grave do padrão de beleza que acabam arriscando suas vidas na busca do corpo perfeito.

O belo foi, em muitos momentos históricos, definido e considerado algo objetivo e absoluto. Para gregos e romanos, belo, verdadeiro e bom eram três valores supremos. Para os gregos antigos, o bom cidadão da pólis tinha de ser belo e virtuoso. Belo (kalós) era não só o de formas proporcionais, mas também forte e são.

Hume afirmava que “a beleza não é uma qualidade das coisas por si mesmas. Ela existe meramente na mente que as contempla, e cada mente percebe uma diferente beleza”. O senso comum diria: “a beleza está no olhar de quem a contempla”. A grande questão é, como foi educado, esse olhar?


Responses

  1. Interessante o texto, e suas reflexões sobre arte e beleza. Sim, muito se pode pensar e dizer sobre o tema, e extrair a partir de análises sobre as diferenças culturais ou temporais. Contudo, fiquei pensando, também, após a leitura, sobre a beleza “invisível”, que ultrapassa a física… talvez, aquela que tem a ver com a virtuosidade, com os valores íntimos, com os vôos da alma… Pois, no mundo contemporâneo, e sempre, se pode observar que, nem sempre, um belo corpo contém, uma alma bela: muitas pessoas, apesar de serem donas de um corpo considerado bonito pelos padrões da cultura e tempo onde vivem, não revelam o que pode se considerar uma “bela alma”, e parecem mais cascas ocas, desprovidas de seiva… Isto também dá o que pensar! Abraços, e um ano novo feliz e poético!


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