Publicado por: Renata Wirthmann | Novembro 16, 2007

DIÁRIO DE VIAGEM AO PAÍS DE FRIDA KAHLO

PARTE 1

      Estudo e escrevo sobre a obra de Frida Kahlo e, para conhecê-la melhor decidi que seria fundamental conhecer pessoalmente seus quadros, sua casa, cidade, cultura, comida, música, roupas, cartas, clima, enfim, como eu poderia me considerar uma pesquisadora de Frida Kahlo sem conhecer os elementos que ela sempre considerou fundamental em sua obra?
      Em busca de completar essa possível falha fiz um projeto para pedir recursos na Universidade Federal de Goiás, onde sou professora. Meu pedido não foi recusado, mas também não pôde ser completamente contemplado, pois a Universidade não paga passagens internacionais, apenas nacionais. Sendo assim, com o apóio financeiro parcial da Universidade, o qual eu agradeço muito, e com o apóio de parentes e amigos, decidi fazer a viagem assim mesmo…
      Cheguei hoje, quinta-feira, à cidade do México, e, tirando o tempo na alfândega (duas horas) e o preço do táxi do aeroporto ao hotel ($550,00 pesos mexicanos, por volta de $ 55,00 dólares), minha primeira impressão da Cidade do México não poderia ser melhor. Depois de um cochilo no hotel, para acostumar ao fuso horário de 4 horas, fui fazer o que mais adoro fazer nas minhas viagens, fui andar a toa pela cidade. Acho que a melhor forma de conhecer uma cidade é entrar em contato com ela, sem nenhum compromisso ou programação. E assim eu fiz, saí do hotel e tomei uma direção qualquer.
     As calçadas estreitas do centro histórico da cidade são cheias de bancas de comidas típicas, roupas usadas e novas, artesanatos, sapatos, etc. São cheias também de pessoas, muito simpáticas e cordiais, na verdade os homens são assim, as mulheres são mais reservadas. A princípio fiquei um pouco sem graça, pois eles mexem muito, nada agressivo, apenas elogios em voz alta. Me lembrei quando fui a Argentina há um ano com meu marido e rimos muito quando um homem me ofereceu, no meio da rua, “casa, comida e 200,00 pesos” e eu respondi: “és muy poco!”.
      Voltando ao México, fui a dois mercados populares, um de artesanatos e outro de alimentos. No primeiro pude ver todo tipo de presentes, jogos e peças para decoração com motivos, principalmente, Maias e Astecas. Comprei para minha filha uma boneca com um vestido como os que Frida utilizava. Nessa feira havia várias bonecas com diferentes vestidos das várias regiões do país, cada vestido desse representa, a partir de suas cores e bordados, as características dos diversos povos Mexicanos. Esses vestidos também eram vendidos para crianças e adultos. Encontrei também brincos e colares como os que Frida utilizava em seus quadros.
      Depois do mercado de artesanato voltei a caminhar até que cheguei num mercado popular que vendia frutas, verduras, comidas típicas, pescados e todo tipo de carne, mas não como se vende hoje no Brasil, mas como se vendia quando eu era criança: animais mortos pendurados ao ar livre, todo tipo de animal, alguns ainda com pêlo, inteiros. Nesse mercado comprei “Tunas”, uma fruta tradicional mexicana que aparece em grande parte das naturezas mortas de Frida. Recebi uma aula rápida de como se deveria segurar, cortar e comer las tunas, pois elas tem uma casca com pequenos espinhos que podem nos machucar. Quando cheguei no hotel provei a Tuna, que é uma fruta verde clara, doce, com bastante suco e muitas sementinhas, que aqui se come, mas que eu, que nem consigo comer semente de uva e de jabuticaba, obviamente não comi.
     Meu primeiro dia em la ciudad de México conheci gustativamente e visualmente elementos dos quadros de Frida, mas o que mais me chamou atenção, como sempre, foi o inusitado. Andando em volta do Paseo central fui surpreendida por quatro inusitados.
O primeiro foi com o caos do trânsito, inúmeros guardas de trânsito, cada um com seu apito, sinalizando uma coisa diferente, um mandava os carros andar o outro mandava esses mesmos carros parar, um mandava os carros andar e o outros os pedestres atravessar, enfim, eu parei na calçada e resolvi acompanhar, talvez entender. Quando parei, outro inusitado: uma passeata com homens, mulheres e crianças pedindo aumento salarial, embora eu saiba que é comum haver passeatas eu não espera encontrar uma hoje. Olhando para passeata outro inusitado, o maior deles, havia um homem nu na margem da passeata! Pensei comigo: “toda cidade tem os seus doidinhos”, mas daí surge mais um homem nu, e depois outro, de repente eu me dou conta de que há dezenas e centenas de homens nus no meio da rua, todos com traços indígenas. Mas eles não estavam apenas nus, havia um papelão com a foto de um rosto cobrindo o pênis, essa foto era amarrada na cintura com um cordão.
     Quem eram aqueles homens? De quem seria aquela foto? Como eles estavam agüentando o frio? e onde estavam as mulheres? Essas perguntas passaram pela minha cabeça e foram rapidamente respondidas: aqueles homens eram do Movimiento de los 400 pueblos; a foto era do Senador Dante Delgado, ex-governador de Veracruz acusado de despojar os camponeses do movimento de suas terras e de prendê-los; para combater o frio eles tocavam tambores e dançavam em ritmos coordenados e, por fim, as mulheres nuas estavam pedindo dinheiro para o movimento – as mulheres, além de poucas, não usavam a cabeça do Senador. Esse terceiro inusitado, sem dúvida, foi o maior, mas ainda houve o quarto: as mulheres nuas estavam em frente ao Museo de Bellas Arte onde colocaram um grande aparato eletrônico com enormes caixas de som, que tocavam músicas Norte Americanas.
      Agora somem todos esses sons e lembre-se de que isso tudo estava acontecendo ao mesmo tempo: Enfim, tínhamos, ao mesmo tempo, som da buzinas dos carros no congestionamento, sirene dos carros de polícia que faziam escolta, o grito das pessoas na passeata por aumento de salários, o canto, acompanhado por percussão, do Movimiento de los 400 Pueblos, e, por fim, o som de música Norte Americana.
      Essa foi minha primeira e boa impressão da cidade, amanhã eu continuo. Acima coloquei uma foto que tirei dos homens nus.


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