A obra de arte difere, de forma imediata, de qualquer outra produção por sua atualidade, por sua atemporalidade. Será sempre obra de arte aquela criação que conseguir ultrapassar a existência do seu criador. Este, sim, permanecerá localizado num contexto histórico do qual sua obra assimilará as influências.
A obra de arte é também aquilo que se vê da própria obra, sempre e cada vez, como se fosse a primeira vez em que ela foi vista. Para se compreender uma obra de arte, não basta interpretá-la iconograficamente, tomando-se por base apenas as imagens, os ícones, os símbolos que nela estiverem reunidos. Antes, é necessário olhá-la como algo jamais completamente compreendido, conhecendo nela seu caráter de enigma. E, ainda que assim seja, não se desvendará completamente o tal enigma. Apenas alguns de seus sentidos parciais emergirão para aqueles que estiverem cientes de que sempre faltam, não só palavras, como possibilidades de se encontrar na realidade todos os componentes de uma obra de arte.
Convém lembrar que obras de arte conformam a representação de elementos já conhecidos, mas não são uma imitação. Portanto, se elas estiverem “fornecendo a imitação desse objeto, elas fazem outra coisa desse objeto. Destarte, nada fazem senão fingir imitar” (Lacan, 1959-1960/1988, p. 176).
De acordo com Lacan, o objeto contorna a Coisa, que é o “verdadeiro segredo” (Lacan, 1959-1960/1988, p. 61), produzindo assim arte. Lacan fala também da obra de arte como um modo de organização em torno de um vazio, em torno da Coisa, das Ding. Contudo, a obra de arte não é a única criação existente. Existem outras formas de representação que não a artística, são criações que surgem igualmente da sublimação e que são, do mesmo modo, linguagem, ainda que se organizem em torno de das Ding. Essa Coisa está, portanto, fora do significado e se apresenta somente quando incide na palavra, ultrapassando-lhe o significado, muitas vezes de forma completamente inesperada, justamente porque, conforme o sugerido por Drummond (1978, p. 247) “o nome é bem mais do que nome: o além da coisa, coisa livre de coisa, circulando”. Assim sendo, “das Ding não está na relação (…) que faz o homem colocar em questão suas palavras como referindo-se às coisas que, no entanto, elas criaram. Há outra coisa em das Ding” (Lacan, 1959-1960/1988, p.61).
O chiste “designa, e sempre de lado, aquilo que só é visto quando se olha para outro lugar” (Lacan, 1957-1958/1999, p. 29). Analogicamente, das Ding só pode ser olhada de lado, contornada. Assim, podemos pensar a obra de arte como um contorno, um modo de apontar, ainda que de lado, para das Ding. Das Ding está sempre sob um véu.
Há sempre algo de intangível na obra de arte, algo de certa forma mítico, impossível, assim como na Coisa, das Ding, que é essencialmente a Outra coisa. A Coisa numa relação com o Outro não barrado e, portanto, mítico. Talvez por isso o objeto se ausenta e, ao mesmo tempo, se presentifica dentro das particularidades de cada obra de arte.
Todas as formas de representação, no campo da arte, produzem o estranho efeito de, simultaneamente, desvelar e velar. A arte não se reduz jamais à linguagem: num trânsito entre sentido e não-sentido, ela ultrapassa os significantes existentes e guarda, como uma de suas principais características, a de ser não-toda.
Renata Wirthmann
Belo texto-tecido!
Sim, o véu da arte encobre, esconde e revela, algo do vazio, e, além disso, faz vislumbrar o pleno impossível, num jogo de luz-e-sombra que tenta desvendar o invísível… jamais completamente cortornado!…
Teu texto me fez pensar, além de Lacan ou das questões sobre a representatividade, sobre o velar e revelar, nos escritos de Didi-Hubermann, em “O Que Vemos, O Que Nos Olha”. Lá, também, talvez algumas pistas sobre o enigma da obra de arte, na qual perduram prazer e dor, jamais completamente decifrados, em transe e trânsito entre o caos e o (s) sentido (s).
Abraços alados.
Por: Ana Kaminski em Agosto 16, 2007
às 12:41 pm
Renata, quase Whitiman,
com as relvas goianas.
Recebi o seu e-mail e
compareci à tua janela.
Assim nada vazia.
Abraços
Por: Salomão Sousa em Agosto 16, 2007
às 4:43 pm
Eu sempre desconfiei que os textos do Wes não poderiam ter sido escritos por ele. Agora, tenho certeza.
Vou linkar lá no meu blog. Quero nem saber.
Abração, Renatinha.
André.
Por: André de Leones em Agosto 16, 2007
às 9:58 pm
[...] texto eu roubei exatamente DAQUI, do blogue Arte e Subjetividade, mantido por Renata Wirthmann. Há outros textos formidáveis, como [...]
Por: Contorno do vazio: uma leitura lacaniana sobre a arte « André de Leones em Setembro 9, 2007
às 5:51 am
Hoje, voltei para reler esse seu texto, Renata. Belo texto. Parabéns.
Por: Tutti em Março 9, 2008
às 1:49 am